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Psiquiatria: a dicotomia entre a responsabilidade e a moral

Como relatei em meus depoimentos, quem está neste abismo, não consegue sair sozinho e, em minha história não foi diferente. Neste processo de busca percorri um caminho difícil em que muitos personagens foram fundamentais mas que, conflitaram em suas posturas, objetivos profissionais e morais. Mas hoje quero falar do primeiro deles, sobre o trabalho de um profissional aclamado pela sociedade como um dos principais responsável pelo diagnóstico e tratamento de casos de transtornos emocionais, o Psiquiatra.





Acredito que para todos nós é difícil imaginar um outro ramo da atividade humana que suscite maior número de inquietações e dúvidas de ordem ética do que o exercício da psiquiatria, tendo em vista que a psiquiatria trabalha com a desrazão, ou a perda da razão, entendendo esta como uma condição doentia.


Prefiro exaltar que esta profissão trabalha a mente humana, a razão e a consciência. Isso leva ao pensamento de que, este profissional, pelo seu conhecimento e formação, necessita dispor da razão, que deve lhe permite pautar suas ações por uma escala de valores e, embasar-se em sua moral.


Como já destaquei inúmeras vezes em meus relatos, somente em meus 40 anos fui diagnosticada em março de 2017 com Síndrome Dipolar Depressiva Genética, ou seja, eu nasci com esta doença. De acordo com estudiosos, o portador de transtorno psíquico tem direito à melhor terapia, mais adequada a seu caso, sendo o diagnóstico correto de primordial importância para a determinação do tratamento e a indicação da medicação mais condizente com o quadro apresentado.


Mas, o que tem dado margem a tantas distorções quanto ao diagnóstico psiquiátrico e sua utilização como uma arma contra o doente, um estigma que favorece tantas vezes a discriminação e a violação de direitos? Em minha história, ao longo de 40 anos e 8 tentativas de suicídio, dezenas de profissionais não conseguiram (e muitas vezes nem tentaram) fazer o diagnóstico de maneira aprofundada e correta, generalizando o diagnóstico como “ansiedade” da mesma forma que a “virose” é utilizada para quando “não sabem o real motivo do problema”.


Outra questão que traz grande inquietação e dúvidas é a vasta utilização de psicotrópicos na prática clínica, sendo que, hoje vivemos em uma "cultura analgésica” de um mundo onde a dor, a ansiedade, a tristeza, em qualquer grau de intensidade, têm de ser combatidas por uma ação medicamentosa. Ao falarmos no compromisso com a verdade, é necessário esclarecimentos que deve ser dados quando houver necessidade de tratamentos medicamentosos prolongados, com seus efeitos colaterais, suas complicações e seus riscos, ou mesmo quando, na presença de um grave quadro de depressão e com persistentes ideias de suicídio, como era o meu caso.


Agora, imagine-se em uma sessão, em que você descreve intensamente sua dor e exclama: “não me receite remédios que poderão me ajudar a morrer, porque, se você receitar, eu irei usar todos eles” e, após não ter te olhado nos olhos uma única vez, ao final da sessão, você sai com uma receita de quatro caixas de um antidepressivo de 40mg faixa preta! Onde estava este profissional? Qual é a seu objetivo com a saúde e melhora de seus pacientes? Onde está a ética e seu objetivo com a verdade, com a moral?

Para mim e para a justiça, isto é clara negligência profissional.


O que se verifica, é a real possibilidade de a psiquiatria ser utilizada não para o bem-estar do ser humano, mas para sua subjugação. Isto tem dado margem para preocupações com o fato de que a psiquiatria possa se converter em um poderoso instrumento de repressão. Com efeito, a psiquiatria tem sido acusada de, em muitos casos, atuar no sentido de adaptar as pessoas, e não curá-las, de tratar certos indivíduos como doentes pelo fato de estes não se acomodarem às regras do jogo social, enfim, de buscar sufocar e conter manifestações de rebeldia contra as opressões do sistema social e econômico.


Não!!! Tratar deve significar contribuir para promover o crescimento, a liberdade e o amadurecimento emocional dos pacientes, sendo imprescindível que seja capaz de aceitar os valores culturais e éticos do paciente, seu modo de ver o mundo e sua maneira de agir.

O trabalho clínico diário, por sua vez, frequentemente coloca o médico diante de situações que requerem não apenas conhecimento técnico-científico e agudeza profissional, mas também compreensão e discernimento quanto às implicações morais de sua atividade. Mas, nem sempre é fácil adotar a conduta mais acertada, consentânea com os difames éticos da profissão médica.


Acerca desta dicotomia moral, uma de minhas mais agressivas experiências aconteceu em meados de maio deste ano quando, quando o filho de minha funcionária, de 11 anos, havia, após agressão de seu pai,tentado suicídio. Para auxiliar sua mãe, que se encontrava em total desespero e sem dinheiro para poder fazer a consulta (que custava R$ 100,00), entrei em contato com a empresa de assistência médica que tenho convênio para todos os meus funcionários, para ver a possibilidade de minha psiquiatra na época, a mesma que realizou o diagnóstico correto de minha doença para poder atender o menino. Entretanto ela estava em viagem e a atendente comunicou que ela retornaria na semana posterior, mas agenda cheia e que depois ela entraria férias. Logo, entrei em contato diretamente com ela para solicitar ajuda, contei toda a situação e solicitei se ela tinha alguma indicação de outro profissional para ajudar. Com sua indicação em mãos, entrei em contato e a profissional tinha um horário em aberto as 11h, mas a atendente destacou que ela só atenderia se minha psiquiatra contatasse solicitando o atendimento inicial (devido a urgência) para que depois ela desse continuidade. 

Minha psiquiatra fez o solicitado, e a empresa me contatou confirmando o atendimento e, minutos antes do atendimento, me ligam, informando que a profissional atenderia a mãe e não mais a criança. Ao ser atendida, para surpresa da mãe, foi informada pela profissional, que a mesma não sabia de nada, que não iria atender a criança, sugerindo que mãe se dirigisse ao atendimento emergencial, ou em consulta com minha psiquiatra ou, a pior de todas as sugestões, realizar consulta particular com ela, pois em seu consultório ela atendia crianças da idade do seu filho. Resultado: a mãe saiu de lá sem nenhuma ajuda para esta situação de risco, mas teve que pagar R$ 100,00 pela “consulta”. 

Entrei em contato com a minha psiquiatra e ela me orientou, “por áudio, que tenho gravado” entrar em contato com a empresa, que é a responsável por ter em seu portfólio uma profissional que age desta forma e assume este tipo de postura. A responsável pela ouvidoria entrou em contato comigo e disse que não tinha muito o que fazer nesta situação, que eu devia enviar um e mail formal com a reclamação, que passaria por várias pessoas e setores, até chegar a profissional que atendeu o menino, para depois de tudo isso, me darem o retorno. Exigi que o dinheiro fosse devolvido pois a mãe pagou por esta postura negligente e não teria dinheiro para outra consulta, e a atendente disse que, se conseguissem ressarcir seria somente após todo este processo. 

Deixei bem claro que, se neste período algo acontecesse com o menino, tanto a empresa quanto a respectiva profissional seriam os responsáveis, pois estão assumindo o risco por negligencia. Então, segui o processo solicitando um retorno plausível e urgente frente a tudo isso.


Qual foi o retorno? Da empresa nenhum!

Mas na segunda feira recebo um áudio de minha psiquiatra me acusando de “ter prejudicado ela”, tendo em vista que a empresa a acusou de ser a responsável pela minha reclamação. Respondi que em nenhum momento eu avia citado seu nome e inclusive enviei copia do documento. Fiquei irritada e falei que iria tirar satisfação com a empresa que, além de não me dar retorno, ainda criou intriga entre mim e minha psiquiatra.


Entretanto, neste momento tive mais uma decepção com a única profissional desta área que, até o momento, tinha se mostrado competente, ética e humana, ao “ouvi-la dizer”:

“Você realmente não está bem! Eu que te trato tenho plena certeza disso! Da onde vem este seu senso de justiça? Quem você pensa que é para querer salvar o mundo? Você está beirando a paranoia e a psicose e eu não sei se quero mais tratar você!”


Tonta em meio a tanta injustiça, respondi:

“Me desculpe não concordar em nada com você! Sempre pedi sua ajuda por ver em você alguém competente e humana. Mas entendo hoje porque profissionais se transformas por causa de dinheiro e outros valores como este. Uma profissional (ela) sempre me disse: você precisa saber a diferença entre doença e tristeza e, neste momento estou triste e, se fores capaz, ouça tudo que você me enviou, e entenderá que, entre paranoia e psicose, quero fazer o bem e tentar acreditar que existem pessoas boas, por mais que situações como esta me mostre que cada vez menos, isto é possível”.


Neste momento meu marido entra em casa e me vê destruída e aos prantos por, mais uma vez ver outros valores diferentes dos que eu enxergava nesta profissional, presentes em seu discurso. Ele escuta o áudio novamente comigo, me abraça e exclama: “você nunca mais colocará os pés naquele consultório!” E lá se foram mais meses de recaída, tendo em vista a dificuldade de crença no ser humano, proposto por está “dita profissional”.


Mas, acredito que, quando uma porta se fecha, outras mais se abrem e, só precisamos estar atentos e conseguir analisar os porquês. Ao pesquisar alternativas profissionais para dar continuidade ao abandono do tratamento pela profissional do relato acima, encontrei a profissional que hoje me trato que, em menos de dois meses, reduziu o número de medicamentos (que em cada consulta da profissional anterior, um novo medicamente era sugerido para minimizar os efeitos do anterior) e conseguiu, em duas consultas, explicar detalhadamente como meu problema necessita ser tratado e vigiado, levando em consideração aspectos de minha rotina, escolhas e personalidade. Ou seja, ainda guardo esperança nesta área, só precisamos estar de olhos atentos e não se apaixonar por quem não merece.


Ao concluir esta historia e, ao analisar que o Código de Ética Médica em vigor, possui um moderno conjunto de regras, estabelecidas com o intuito de contribuir para o reencontro da medicina com a sua vocação humanística, do médico com a dignidade do seu trabalho, amparados em dispositivos voltados para a questão dos direitos humanos, enfatizando as responsabilidades do medico como técnico e como ser social, condenando qualquer forma de discriminação ou de violentação da pessoa humana.


É importante destacar que o processo de conscientização de que a doença mental não exclui a cidadania, tendo, portanto, os pacientes psiquiátricos, tanto quanto todas as outras pessoas, direito à liberdade, ao respeito e a consideração dos membros da sociedade e, principalmente deste profissional aclamado.


Leia mais em:

http://www.portalmedico.org.br/

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